Em minha travessia pelo mundo, atravessei o Amazonas. Nessa travessia encontrei uma índia branca, sentada na beira do Rio. Achei linda aquela imagem, não mais linda do que tantas outras em outras margens, apenas o nada parecido com outras viagens parecidas, e ainda assim, parecia mais algo que eu já conhecia… Mas eu simplesmente sabia, ou pelo menos eu soube perceber: ela estava escutando seu pai, aquele que eu atravessava – o Rio. O Rio Mar, rio que faz as honras da casa. Mas não foi dessa vez que a abordei. Seria indelicadeza atrapalhar aquela conversa, sem pressa, quieta, uma conversa a qual não decifrei.
Algo me atraia naquela imagem primeira, como uma foto que não tirei e que fica difícil de tirar da cabeça. E não há nada como uma foto que não foi tirada… Quando queria me sentir tranqüilo, voltava naquele ponto da margem em que a encontrei afim de que os deuses e cobras mágicas que habitam o Grande Rio se compadecessem com minha ignorância e traduzissem aquela conversa para minha língua… E mesmo sabendo que não me era permitido saber, esperava à beira do Rio, o acontecimento.
Um dia, no fim da tarde de um dia quente, arrisquei pisar na água, mas em nada pensei. Nada de maior pretensão em minha ação, apenas molhar-me naquela água que conversava. Nada que viesse rimar com alma… E ela se aproximou e não precisou mais nada, não havia mais linguagem estranha nem códigos, amarras. Minha índia – e ela me deixou chama-la assim, talvez por não saber mais onde estava sua tribo agora – pegava na minha mão, sorria, e naquele instante eu também sorria e quase era feliz. Eu era feliz.
Sua pele, quase igual à de minha raça, eu chamava de Brasil e isso todos nós entendemos, é fácil até pra mim, que vivo a atravessar mares, oceanos, desertos, estradas, rios… e o Rio. Difícil foi me imaginar pensando na possibilidade de lá, minha âncora baixar. E eu me sentia atraído, muito atraído pela tranqüilidade misteriosa que eu quase sabia. Só não sabia se ela sabia, mas acho que ela também, ela quase sabia. E era quando lembrava que nem mesmo eu sabia se tinha âncora.
Mas nem tudo foi mistério. Ela me contou de seu sabor e de seu amor. E eu, com medo de ser mal interpretado (erro comum que o “cara pálida” comete), quase não falava. E de tanto ela entender meu silêncio, voltava no outro amanhecer pra que ela não tivesse nenhuma dificuldade de entender o porquê, o porquê do avesso. Mas reconheço: ela entendeu, e entender é puro clichê. Um tanto querer que nem se sabe, nem se sabe querer ou mesmo o que querer.
O Rio é muito grande!
Como conhecer algo tão grandioso? Haveria de ser a procura de uma vida. E isso, de onde eu vinha ou mesmo ao lado de minha índia, era de uma angustia ínfima. E ela se antecipava sempre, como o som da Pororoca que chega antes da destruição, sempre, sempre. Eu dizia “o sempre: ele não existe”. Na sua língua ela respondia: sim. Eu tinha minha estrada e ela tinha o Rio, que eu teria que enfrentar em minha travessia de volta para minha estrada. Terra firme, mas não minha morada.
E foi em minha volta, em minha travessia de volta, pra algum lugar que dessa vez posso talvez, como tantos outros, chamar de casa, que pensei naquela Índia de pele clara e olhos da cor do Rio, que mudavam de acordo com o humor, o seu e o do rio. Foi ela que em uma ocasião (olhando nos meus olhos como que se reconhecia lá), me contou que o rio mudava de humor, e de uma maré para outra às vezes, mudava de idéia. Foi ela que em outra ocasião (olhando nos meus olhos me fazendo ver: vitrine e espelho), me contou que nenhum homem sai ileso de suas margens, das margens do Amazonas.
Movimento vale a pena Ler de novo!





