Uma vez me apaixonei, perdidamente. E preciso explicar que o perdidamente não é apenas força de expressão, me perdi mesmo, nunca havia perdido nada, nada, absolutamente. Metódico que só eu, tinha um mapa de minhas coisas de casa e do trabalho como num GPS última geração em minha cabeça, e sempre me orgulhei muito disso. Não chegava a ser doença, pelo menos não mais, depois que mandei embora a empregada porque ela colocou minha camisa amarela de trabalho junto com a roxa de passeio, achei que estava na hora de procurar terapia e há dois anos já deixava os legumes verdes misturados com os vermelhos… Eu ainda era solteiro, dava pra ser doido assim.
Dessa vez, me apaixonei. Claro que não foi apenas daquela vez, mas dessa que estou falando foi paixão pra escrever um livro, mas como não sou escritor, vou escrevendo assim mesmo, sem muita lógica . Eu amei minha mulher, amei muito, mas paixão, ah, paixão foi aquela. Nunca falei sobre isso com ela, mas acho que ela sabia, afinal, ela era muito esperta e me conhecia como ninguém. É, não foi preciso falar sobre isso não, meu amor era dela, mas paixão, ah, paixão foi mesmo aquela.
Então eu me perdi. Não sabia onde colocar meus pensamentos, imaginem as coisas. Esquecia tudo, bem como não lembrava de nada. E não é redundância não, é a pura verdade. A coisa era complicada, eu pedia o pão e esquecia de pagar, eu esquecia, em qualquer lugar o celular, e eu já falei, nunca esquecia nada. De repente minha casa parecia ter um buraco negro, meus CDs já não estavam no lugar, que dirá em ordem, não existia mais ordem alguma. Perdia tudo, inclusive a hora, a hora que passava devagar quando estava com ela. Tinha vontade de perguntar se essas coisas aconteciam com ela também, mas era demais, era admitir. Admitir que eu estava apaixonado, perdidamente… Um dia, deixei o perfume dentro da geladeira. Foi quando eu percebi, estava louco! loucamente, necessariamente louco, por ela! O perfume na geladeira foi demais, isso tinha que acabar. Mudei, me policiei o quanto pude, antes que saísse do controle (já tinha saído, mas eu precisava voltar). As coisas melhoraram, tanto que até falei pra ela, e ela, ela apenas sorria. Ela sorria porque não sabia do perfume na geladeira, tenho certeza que teria me achado varrido e talvez pensasse em me deixar, ou seja, eu não podia falar tudo. As coisas melhoraram, eu continuava tonto e meu GPS cerebral só apontavam pra ela, mas já não esquecia as coisas dentro de lugar nenhum.
Quando minhas angustias sobre não me pertencer mais, não mais me afligiam, acordei bem, me arrumei e fui trabalhar. Contente, estava apaixonado, mas ainda sabia de mim, pelo menos essa certeza eu tinha, sabia de mim e onde havia deixado o perfume. Cheguei no trabalho cedo e pra meu espanto senti que as pessoas me olhavam diferente. De repente eu era quase popular. Aquilo não era normal: “Oi Waldir, estas mais magro!”( e eu havia engordado), “Hum, roupa nova, eim?” (e era apenas minha camiseta vermelha de trabalho), “Nossa! Lentes de contato, é?!”(e era apenas minha única herança, um par de olhos verdes de minha vó portuguesa), entre outras. As pessoas estavam falando comigo mais que o usual e eu falava com elas e sorria, isso não era um bom sinal, “ah meu Deus, preciso voltar com minha fama de mal , pelo menos a de mal humorado” pensei, mas um sorrisinho ridículo não saia dos meus lábios. É, eu estava apaixonado. Perdidamente e já me achado.
Quando assumi minha paixão, descobri que eu, definitivamente, não era bom nisso , e ela? bem… Ela me parecia tão acostumada, que resolvi imitá-la. Ela não era a mais bonita, mas transpirava paixão. Era isso que eu nem sabia que procurava. Uma dia ela me olhou sem dizer nada e eu percebi, não agüentaria, tinha que voltar pra minha vida, pois aquela era muito colorida. Voltei. E é claro que ela não entendeu. Nunca mais fui tão preto e branco como antes…
Uma vez me apaixonei. Tive medo. Pensei que assim não teria sossego… A verdade é que agora, não mais em segredo, dessa paixão, minha alma não tranqüilizei.
p.s.: é amigo, a história é sua, o floreio é meu.