Reza a lenda que eu não me choco com nada, ou quase nada. É lenda! Em ano de eleição, descobri, eu ainda me choco com o despreparo, com a intolerância, ignorância, e principalmente com a arrogância de muitos candidatos. Candidatos esses que afirmam querer representar a “minha” voz. Mas pra que isso aconteça, minha voz exige respeito.
Tendo a acreditar que estamos vivendo a era do “Se nada der certo, viro político”. E pelo que nos é apresentado, viram mesmo. Esses são os despreparados e/ou ignorantes de minha lista. Para os quais minha atenção é mínima – pelo menos enquanto são apenas candidatos -, uma vez que não os reconheço como possíveis “representantes”. Mas são, infelizmente, dignos de minha comoção quando são eleitos, sinal de que representam muitas vozes, que é obvio, serão desrespeitadas.
E seguindo a lista, os intolerantes/arrogantes. Que podem ser ou não, também, despreparados. Para os quais um pensamento, se não for o deles, é descartado, ou ainda pior, é contra eles. Crêem que sua filosofia ou idéias políticas são as únicas corretas. Geralmente bombardeiam o eleitor com o discurso no qual, a palavra democracia, pasmem, aparece quase como seus próprios sobrenomes. Podem não fazer parte do mesmo partido, mas jogam todos no mesmo time.
É claro que a efetiva democratização dos Estados é diretamente proporcional à capacidade intelectual dos indivíduos. Num pais onde o déficit educacional é maior que qualquer boa vontade política de mudança, presumo que ainda não será agora que poderei dizer “não me choco com nada”… E não será mesmo:
Ao ser perguntada sobre meus candidatos por um político, e dizer que ainda não havia decidido, recebi um sarcástico “em que mundo você vive?”… Mas aprendi que ninguém pode dar o que não tem, e eu tenho educação, sorri e não respondi. Eis que, semanas depois, um outro candidato, me ofende por “brincar de fazer versinhos” e não falar de política, e que quando faço isso deixo de ser uma mulher inteligente e politizada para me juntar ao restante da corja alienada de nosso Estado. – E antes de qualquer outra consideração, devo dizer que a maior ofensa pra mim, foi o texto pobre e mal redigido em que isso foi dito.
Arrogância pouca é besteira! Até mesmo minha educação me mandou rir. As vezes a política, e aqui também falo da política local, me faz lembrar “Nas dores do Mundo”, em que Schopenhauer afirma que “nem todos os loucos ou burros são fanáticos, mas todos os fanáticos são loucos e burros.” Mas seria mesmo preciso chamar Freud, já que Schopenhauer não fala de causa… Desculpem os mais sérios, mas faço pouco de vocês, nunca levei a sério quem se leva tão a sério assim. Por não confiar, desculpem-me outra vez.
Minha discrição virou alienação política. Ser poeta me tornou burra! Vai ver minha mãe esteja certa quando diz que precisamos ficar atentos pra não perdermos a estação em que os valores trocam de trem.
Pelo que lembro, ainda sou capaz de me orientar politicamente conforme meus próprios interesses. Por um lado, me interesso pela política de meu país, e do outro, não creio na operosidade de instrumentos inoperantes, nem acredito em salvadores de pátrias. E principalmente, não me recuso a raciocinar, decidir e traçar meu próprio projeto de vida. Não compreender o significado disso tudo, bem como o sentido que possa ter, é realmente o conceito de alienação política!
Esse político se referia, talvez, à época em que eu tinha carteira de filiação em partido político, e que até mesmo advoguei para aquele… Meus motivos pessoais não dizem respeito a ninguém, mas é interessante quando alguém nos dá motivos (fortes como os que cito aqui) para nos fazer perder o respeito. E o melhor da vida é mesmo isso: poder fazer escolhas, e saber que amanhã, ou depois de amanhã, minha “voz”, aquela que esse ano todos querem representar, seja pronunciada em outro timbre. Talvez com palavras “filiadas” em versos, afinal, poetas votam, e fazem votar.








[...] This post was mentioned on Twitter by Kiara Carrera Guedes. Kiara Carrera Guedes said: Obrigada Amigo! RT @elbermcp: Excelente texto da @kiaraguedes. Não percam: http://ht.ly/28ozu [...]
Sua voz soa junto com a de milhares de outros brasileiros…
Excelente texto, SUPER Kiara! =)
Já estou divulgando…
Um abraço.
Kiara escreve por nós todos….adorei…abraçoss
Li de manha bem cedo aqui na França. Mas como vou todo dia a um curso de croquis numa cidade proxima de onde moro e ja estava em “cima da hora”, adiei meu comentario para mais tarde. Tens razão! Nossas vozes e nossos destinos são muito importantes para serem representados por gente desse gabarito. Para esse tipo, fazer poesia incomoda; fazer arte incomoda; fazer musica incomoda. Sera que foi por isso que deixaram ao Deus dara a Escola de Arte Candido Portanari, a Escola de Musica Walkiria Lima, o Museu Sacaca, o nosso Zoologico?? Eh Kiara, a arte, a poesia, a leitura incomodam e nos, que tivemos a garra de buscar isso por nos mesmas, sabemos porque. Porque arte, poesia, leitura abrem os horizontes e desalienam as pessoas. Mas, se tudo isso (arte, poesia, leitura, musica, etc) continuar a ser negado às nossas crianças e aos nossos jovens, continuaremos a ter eleitores que votarao em politicos desse tipo, infelizmente. Belo teu texto.
Sem descer do salto, calou a boca dos destinatários e mostrou em que país vive a poetisa, que tem licença poética pra “brincar de fazer versinhos”. Diferentemente dos membros do Legislativo e Executivo, que não têm “licença” pra brincar com as NOSSAS vozes e vidas, porém brincam, pintam e bordam.
O bom da democracia é cada um dizer o que pensa, com todas as suas limitações. Até você.
Lembrei-me do Gregório de Matos Guerra, com Epílogos (que eu adoro!).
É bom escrever o que a gente quer, mas sem ofender, sem perder a educação e sem passar da barreira, que todos temos que ter, do respeito. Fizeste-o com maestria. Seu texto ficou demais! Ave, Kiara!
Bom, Gregório exagerava um pouco! rsrsrsrsrsrs