12 de Outubro – Feriado Nacional, Dia de Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil.
Quando eu era criança, achava que esse feriado era por minha causa, pela causa de meus coleginhas, ora! Éramos crianças! Que outro motivo seria tão importante assim? Dia 12 de outubro não teríamos aula, e de bônus, ainda sairíamos pra brincar o dia inteirinho, além do presente.
Hoje, feriado. Manhã preguiçosa. Ainda sonolenta, espero na cama um mimo que não vem. Espero papai e mamãe com um Bom Dia enorme, com o sorriso maior que o quarto, que não vem. O relógio me diz que já é quase hora do almoço, afinal é feriado, e feriados são praticamente feitos para que os adultos aproveitem para dormir, ou porque dormiram tarde, ou pelo prazer de saber estar dormindo no horário de trabalho. Olho em volta, percebo um quarto normal, igual à de todos os outros, um quarto de… OOH! ADULTOS! Dou uma olhada no lençol que me cobre e não há nenhum personagem de um de meus desenhos animados preferidos, nem ao menos uns sorvetes e pirulitos, nada… Fazer o quê? Ok, pelo menos é feriado. No banheiro não há nenhum xampu da Turma da Mônica, nenhum “Johnson & Johnson” com letrinhas coloridas escrito nos muitos frascos de cremes e mais cremes sobre a bancada. A escova de dente é apenas uma escova de dente, verde… Pelo menos isso. Pelo menos não esqueci minha cor preferida! Uma escova de dente comum, dessas que só serve para escovar os dentes com uma pasta que não tem gosto de tuti-fruti, uma escova sem graça nenhuma, sem carinhas, monocolor.
O dia passou e eu me permito comer alguma besteira, algum sorvete que nem tem tanto gosto de “besteira” assim, mas como é feriado a dieta não é tão rígida. Pelo menos tenho o privilégio de ser chamada ao telefone de neném, seguido de um sorrido irônico e ao mesmo tempo nostálgico. O que me faz ter dúvidas sobre qual dos sentimentos eu fico: o da alegria de ser a única a poder escutar ser chamada de “nenémzinho”, já que sou a caçula e um sentimento de culpa por ter crescido e os deixado.
No cinema passa um filme desses com animais que são uma graça, não me agrada a idéia de enfrentar uma fila enorme e fico com “Valentin” de Alejandro Agresti, no Cine Cult. História de um garoto argentino de 8 anos de idade e de suas impressões sobre os acontecimentos e pessoas com quem convive. Detalhe: Embora o protagonista seja criança, é uma obra prima argentina feita para adultos.
Já é noite e resolvo ler um livro. Algo light, pois feriado no meio da semana precisa de algo light de noite. Decido por uma releitura. Releituras são sempre prazerosas sem exigir muito. Vou até a estante e a primeira coisa que pego é um livro de Clarice, claro.
Ah Clarice Lispector!…Ela bate forte mesmo, sem pena, sempre. Clarice vem e me esbofeteia, e tonta ainda, acho que a Henriqueta Lisboa vem me presentear e acalmar, mas só me diz verdades que rasgam, com aquela ironia disfarçada em versos perfeitos que a Clarice faz questão de fazer na lata… Ai só me resta o choro com intervalos de risos no colo da poesia mansa e brincalhona do Mario Quintana. Ainda no colo, imploro que ele leia Cecília Meireles, e com carinha de moleca pidona e voz tola peço que me faça um mingau e leia pra mim “A bailarina”, meu primeiro poema de meu primeiro livro.
Aí durmo… “como as outras crianças”…
Imagem: Pintura de Kiallitas – From my Childhood II
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dia que ja foi meu, e seu tambem