
Estou fazendo uma oficina de roteiro. O professor é o Ivan Carlo, ele é um ótimo professor, deixa a coisa parecer super fácil, típico dos que sabem repassar conteúdo. Alunos super interessados, sala sempre cheia e gente que quer somar. Pra mim, é um ótimo exercício de criatividade, e principalmente, claro, oportunidade de aprendizado. Aprender coisas novas é sempre desafiador, e eu gosto muito disso.
E ta tudo muito bom, tudo muito bem, mas é de como tem sido pra mim que vim falar. Adianto que no mínimo estranhamente engraçado.
Amo cinema, sou do tipo que vai ao cinema sozinha sem constrangimento algum e isso todo mundo sabe. Adoro curtas, e dou muito valor em quem trabalha com cinema e artes visuais, acho que é uma área interessantíssima, uma das mais criativas formas de arte. No post anterior até contei que meu carnaval seria com desfile de filmes clássicos. E até aí, nenhuma novidade. O engraçado é perceber em cada aula que minha paixão, ia chamar mesmo de “vinculo” com a literatura e o teatro, é tão forte que as vezes me impede de “pensar em imagens”.
Na literatura, a “ação” acontece sempre do ponto de vista de um personagens, vamos dizer… de dentro do mundo pessoal do personagem principal, de sua mente. Se formos prestar atenção, estamos sempre em contato com psicológico daqu
ele, mesmo que a primeira vista, ele “só” está ali narrando algo, pois não há narrativa literária sem interferência pessoal.

No teatro, acontece diferente, mas ainda bem longe do cinema. A mesma “ação” que citei que acontece na literatura, acontece no palco, a platéia torna-se igualmente parte do elenco. Tudo é passado através da linguagem falada, a palavra. Você está lá, basicamente, pela promessa verbal.
O que acontece comigo? Estou absolutamente acostumada, e treinada para pensar dessas duas maneiras, minhas ligações neurais se negam, pelo menos num primeiro momento, de brincarem diferentemente. Um bom exemplo que tenho de como isso acontece foi quando fui aprender espanhol (língua que adoro escutar!). Sempre fui apaixonada por línguas e embora tudo fique mais fácil depois que sabemos uma língua latina (o português) e outra saxã (no meu caso o inglês), na hora de falar espanhol, estava tudo lá na memória: as regras, pronuncia e tudo mais. Quando no meio de uma frase, da metade pro fim, as palavras saiam em inglês. Claro!, meu cérebro “pensa” logicamente, se não estou falando português, ele fecha essa ligação neural e dá espaço para outra que já está também completa, o inglês.Então, no curso de roteiro acontece o mesmo, é mais ou menos assim:
O professor fala de narrativa linear e cronológica e imediatamente, eu penso em “A viagem do Elefante”do Saramago. Só depois disso que vou buscar um filme, ou presto atenção no exemplo dado. Numa não linear, que mistura tempo cronológico com psicológico, lembro de “Memórias póstumas de Brás Cubas” de machado de Assis (amo esse livro com toda força!) . Enquanto todo mundo pensa em “Pulp Fiction” como exemplo de narrativa não linear, lá está a lesada da Kiara pensando em Virgínia Woolf, mestra nessa linguagem. Fala-se de narrativa em flash-back e é inevitável que eu pense em “Dom Casmurro” de Machado ou “Morangos Mofados” do Caio Fernando Abreu, e eu bem que podia lembrar de pronto do clássico “O crime não compensa”, mas não… O assunto é flash-forward e na minha cabeça vem a narração de “O presidente negro” do Lobato. E por aí vai…
Sem contar nos exercícios em casa. O professor dá dicas de como assistir um filme e pensar como roteirista: “Parem um momento e pensem, com a pausa como recurso, como você resolveria aquela cena”. E eu só prestando atenção nas atuações dos atores. E em meus seculares exercícios de como uma transmitir uma emoção dos cursos de teatro…

O pior mesmo é que o Ivan, o professor do curso, que além de meu amigo, e igualmente blogueiro, é capaz de estar, neste instante, lendo tudo isso, balançando a cabeça, com o efeito sonoro bucal: “tsc, tsc…”! Sinto que vou decepcioná-lo. Será?
Mas estou melhorando, ou tentando acreditar. Juro. Na terceira aula, já consegui pensar mais em imagens, e se for uma aluninha aplicada, quem sabe daqui a outras três aulinhas, não estarei pensando com “cabeçalhos” e percebendo os “ganchos” na própria aula, ou ainda em um “gimmick”que resolverá de uma vez por todas, minha atual situação problemática. Meu pensamento literário e teatral. Mas poderia ser pior, imagina um não pensar… Bem, bem pior!